sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

600 HORAS - É O TEMPO MÍNIMO DE ESTUDO PARA UM INGLÊS EFICIENTE NO TRABALHO

Por Lia Regina Abbud e Ligia Braslauskas - Folha On Line 1999 



"It will take at least six hundred hours to reach an advanced level of knowledge in English." Se você precisa recorrer à tradução (serão necessárias, no mínimo, 600 horas para você adquirir um conhecimento avançado de inglês) para entender a frase acima, prepare-se para estudar muito.


Segundo especialistas consultados pela Folha, essa é a carga horária mínima para que um aluno sem conhecimentos de inglês chegue a um patamar em que não tenha problemas, na vida profissional, com o idioma, o que implicaria mais oportunidades no mercado de trabalho e mais segurança para frequentar reuniões, ministrar palestras e participar de treinamentos em inglês.


A dedicação e o tempo de estudo fora da sala de aula interferem no aprendizado e podem fazer com que alguns alunos precisem de menos tempo para chegar ao mesmo grau de conhecimento.

Denominações Variadas


Na hora da escolha do curso, no entanto, é preciso ter cuidado. As escolas oferecem programas com denominações variadas, ou seja, o que é chamado de nível intermediário em algumas corresponde ao básico de outras.


Segundo Leland McCleary, 55, coordenador do curso de inglês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo), carga horária e preço são bons parâmetros na hora de optar.


Para ele, no final do curso básico, o profissional deveria estar pronto, quanto à aptidão oral, para enfrentar uma viagem.


O intermediário aumenta vocabulário e compreensão na leitura e prepara o profissional para escrever textos simples. O avançado é interessante para aperfeiçoar todas as habilidades, especialmente a escrita. Também dá ao profissional conhecimentos de uma linguagem mais formal.


Segundo Rajendra Singh, consultor especialista em idiomas, no caso de aulas particulares ou de aulas em pequenos grupos, o tempo de aprendizado pode ser reduzido para 400 horas.


Para Heloisa Collins, 49, professora de pós-graduação da área de linguística aplicada da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a passagem de um nível para outro depende do aluno e do tipo de curso escolhido para alcançar o objetivo.


"O ideal é o curso se adaptar às necessidades do candidato e não o aluno ter de aprender conforme a metodologia da escola."

Heloisa diz que o alto investimento, tanto financeiro como de tempo - há cursos que levam oito anos para formar o profissional, é um fator que desanima os candidatos. "É por isso que a escolha do curso é o primeiro passo para o bom aprendizado."


Sem deslizes
No caso de profissionais que usam o inglês com frequência no dia-a-dia, especialmente os que trabalham em multinacionais e que não podem cometer deslizes, o ideal é estudar algumas horas a mais para chegar ao nível exigido nos exames de proficiência.


Segundo pesquisa da escola de idiomas CEL-LEP, baseada em documentos estrangeiros da área de ensino, são necessárias 960 horas de inglês para que o aluno esteja apto a prestar um exame como o CAE (Certificado de Inglês Avançado), aplicado pela Universidade de Cambridge.


Mas, assim como no sistema de aprendizado, que pode ser mais rápido, dependendo do tipo de curso escolhido pelo aluno, a carga horária para se chegar ao exame de proficiência do idioma pode ser bem menor.

Aula rende em pequenos grupos
Após optar por uma escola e fazer a matrícula, você descobre que a sua classe tem 20 alunos.


Não se iluda achando que o trabalho será eficiente. Em classes grandes, é muito mais difícil que cada aluno receba atenção especial e que o professor detecte as deficiências individuais.


Para Leland McCleary, da USP, o ideal é que as classes tenham entre 7 e 12 alunos. "Aprender um idioma é um processo interativo. Por isso acredito na eficiência das aulas em grupo."

Segundo o consultor Rajendra Singh, para que o trabalho seja bem feito, as classes não devem ter mais de dez alunos. Mas ele não descarta a opção por aulas particulares. "Dependendo do professor, a aula rende muito mais, por isso é mais cara."


Quanto à frequência das aulas, Singh orienta os alunos a optar por cursos com frequência de duas ou três aulas semanais.


"Uma aula por semana é muito pouco, e o aluno demora a ter contato novamente com o idioma. Já quatro aulas semanais deixam o aluno sem tempo para reforçar o conteúdo em casa", afirma o consultor.


Desistência
Segundo Singh e McCleary, é grande o número de alunos que desistem de estudar quando chegam ao nível intermediário.


Isso porque, quando estão no nível básico, como tudo é novidade, os alunos percebem o progresso rapidamente. No intermediário, ele é menos aparente, o que os deixa frustrados.

Especialistas divergem sobre a relação custo-benefício de aprender lá fora

Estudar no exterior é para poucos
Aprender inglês aqui ou no exterior? Até entre os especialistas há polêmica sobre qual é o melhor investimento - considerando a relação custo/ benefício. De acordo com a Belta, associação de agências especializadas em programas de educação internacional, o Brasil foi, em 98, o terceiro maior emissor de alunos para os Estados Unidos.


A Inglaterra também foi responsável por mais um pódio brasileiro - fomos o segundo país que mais enviou estudantes, também no ano passado. Apesar da polêmica, há um consenso sobre dois aspectos.

Primeiro: se o objetivo é aprender inglês rapidamente, estudar no exterior só surtirá real efeito para quem já tem um conhecimento intermediário do idioma.


Segundo: cursos de inglês com duração inferior a um mês ou aqueles associados a esportes ou ao lazer podem ser pouco eficientes caso o objetivo prioritário seja o domínio do idioma.


Há quem garanta que, se o estudante dedicar o mesmo tempo de estudo aqui e no exterior (a carga dos cursos fora do país é de 20 horas semanais, geralmente), o aprendizado será o mesmo. Outros não concordam e argumentam que, no exterior, o aluno terá contato com o idioma também fora da sala de aula.


Contato com nativos
Para Leland McCleary, coordenador do curso de inglês da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, no exterior os alunos terão aulas com professores nativos e poderão manter contato com norte-americanos e ingleses. "Mas existe o risco de ele cair em uma classe cheia de latinos e não praticar o idioma", pondera. O preço é outro fator complicador. Porém, é bom lembrar que o custo da hora/ aula, mesmo em tempos de crise, é semelhante.


Enquanto no Brasil o preço vai de R$ 10 e R$ 20, nos EUA oscila entre US$ 8 e US$ 15, em média. O que encarece os cursos lá fora são os gastos com a passagem aérea e com a estadia.


"No Brasil, em um curso de três horas/ semana, o aluno tem aulas dissociadas da realidade. O que ele aprende não coloca em prática", diz Celso Garcia, da Belta.

No entanto, o diretor da associação concorda que o ideal é sair do Brasil com o básico concluído. "O valor e o tempo investidos serão melhor aproveitados." Para o coordenador do curso de inglês da USP, uma das desvantagens dos cursos internacionais é ter grupos muito mistos, com alunos de diversos países.


"Aqui, o professor já sabe quais são as dificuldades mais frequentes entre os brasileiros. Lá fora, muitas vezes, o professor nunca teve contato com determinadas culturas e pode ter dificuldade para esclarecer alguns pontos do idioma. A classe pode sair perdendo com isso", diz McCleary.

Empresas oferecem subsídio até certo estágio


A exigência das empresas para que seus funcionários saibam o idioma é grande, mas, para cobrar resultados, oferecem incentivos para que desenvolvam, até certo ponto, esse conhecimento.


No ano passado, o BankBoston investiu US$ 350 mil em programas de idiomas (que incluem cursos de inglês). A estimativa para este ano é de que o investimento chegue a US$ 400 mil.


Segundo Denise Moreira Asnis, 34, diretora-adjunta de desenvolvimento de Recursos Humanos da empresa, hoje são cerca de 520 funcionários, de um total de 4.000, os envolvidos nos programas. "Muitos não entram nessa contagem, porque já são fluentes no idioma ou porque já atingiram o grau desejado."


A empresa faz uma classificação de qual o estágio que cada funcionário deve atingir (em função do que o cargo atual exige ou do que prevê seu plano de carreira) e oferece um subsídio de 50% para os estudos do profissional até esse estágio.


Depois disso, é feito um plano de autodesenvolvimento para os profissionais, em que a empresa indica e disponibiliza material didático necessário. Existe também a possibilidade de o profissional fazer um curso de inglês fora do Brasil, mas são casos mais raros. Se for uma necessidade da função, o banco dispensa o funcionário pelo tempo necessário e paga 50% do curso. Caso contrário, é feita uma negociação envolvendo tempo necessário, férias e despesas.


No Citibank, o investimento também depende do perfil do funcionário, do plano de carreira e da necessidade do inglês na função que o profissional desempenha. Segundo Rose Pinto, 45, consultora de treinamento do Citibank, dependendo da função, já é um pré-requisito conhecer bem o idioma. "Porém, até mesmo nesses casos, pode ser interessante que esse conhecimento seja aperfeiçoado."


O subsídio oferecido é de 80% do valor do curso. O investimento, no entanto, está vinculado ao aproveitamento do aluno no curso. Caso o profissional falte muito às aulas ou o seu desempenho seja insatisfatório, o subsídio pode ser reduzido ou até mesmo cortado.


E, assim como no Citibank, à medida que o funcionário chega ao estágio desejado (exigido pela função), o subsídio é cancelado. "Se continuamos financiando o curso até o final, deixa de ser um investimento", afirma Rose.


Dominar o inglês é melhor


Apostar no aprendizado de idiomas diferentes, como russo, norueguês ou chinês, certamente não é o melhor caminho para disputar uma vaga no mercado de trabalho, mas pode ajudar.


Depois do inglês e do espanhol (segunda língua mais solicitada pelas empresas, segundo pesquisa do Grupo Catho), a escolha pelo terceiro idioma deve estar baseada na atuação profissional ou no segmento da empresa.


Heloisa Collins, 49, professora do curso de pós-graduação na área de linguística aplicada da PUC (Pontifícia Universidade Católica), afirma que o inglês é imprescindível, e o espanhol começa a ganhar espaço.


"O terceiro idioma tem de estar relacionado com alguma área de interesse, como os mercados onde a empresa atua ou os objetivos de carreira do profissional."


Segundo ela, não adianta a pessoa ter o domínio de um idioma como o japonês, se a empresa atua no mercado italiano.


Eliana Jorge Castrucci, gerente técnica da DMRH, concorda que todo idioma aprendido pelo profissional deve ser utilizado para atribuir pontos ou diferenciais na carreira. "O importante, quando o profissional está disposto a aprender um novo idioma, é perceber como esse investimento vai trazer benefícios para a sua carreira."


Só que sem o domínio do inglês tudo muda de figura. Na opinião dos consultores, quem não sabe o inglês deve correr para recuperar o atraso e aprender a falar o idioma com fluência.


Uma pesquisa do Grupo Catho, realizada com 530 executivos na cidade de São Paulo, mostra que apenas 14,14% dos entrevistados falam o inglês corretamente, 29,09% falam com fluência, mas cometem erros, 29,10% falam com dificuldade, e 14,55% possuem inglês só para leitura. "Esses números são um bom exemplo de que o profissional, antes de se dedicar a um idioma diferente, deve se empenhar em aperfeiçoar o inglês, para torná-lo uma ferramenta de trabalho."


Ele afirma que uma das reclamações mais frequentes das empresas com que trabalha é a falta de domínio do idioma, e que isso, muitas vezes, faz o candidato perder a vaga.


Case diz que, na maioria das vezes, o profissional aprende a falar apenas o suficiente e na hora em que precisa do idioma sente as dificuldades. "Durante uma entrevista, o candidato não pode responder que fala o idioma 'mais ou menos'. Ou fala ou não fala."

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